O Netuno Júlio Grande e seu Tridente na Praia do Porto em Fernando de Noronha, década de 60.
Meu bisavô foi um dos maiores mergulhadores de apneia de seu tempo no Arquipelágo de Fernando de Noronha, é conhecido por sua vivência na Ilha Rata e por suas histórias inusitadas de acontecimentos no mar com seu tridente que fora confeccionado pelo ferreiro finado Seu Golveia. Cordialmente esteve na ilha como soldado do exército brasileiro onde conheceu minha bisavó Dona Prazeres com quem teve 10 filhos, Dona Lourdinha minha avó a filha mais velha deles, Neném também um Grande mergulhador de apneia assim como todos os filhos homens, Paulo, Maneco, Iran, Solon e Sola os gemêos e Germana a filha mais jovem, todos nascidos e criados aqui. Na década de 50 a ilha não tinha mercados com abastecimento periódico, e para uma família sobreviver a necessidade de se adaptar ao ambiente era imprescindível, assim Júlio ensinou seus filhos desde muito pequenos a respeitarem o mar e saberem aproveitar de sua abundância. O mergulho artesanal de apnea é cultura local, no tempo de Júlio muitas das leis ambientais que proibem essas atividades não existiam, assim o cotidiano era totalmente voltado para pesca artesanal. Era muita fartura diz minha avó, muito peixe, lagosta, aratu (
espécie de carangueijo), carangueijo terrestre, muitos pratos eram feitos a base de arraia, tubarão, até carne de tartaruga era muito consumida. Além disso Júlio Grande era Agricultor nato, onde hoje é a atual Escola de Ensino Fundamental e Médio da Ilha no bairro da Floresta Velha era um enorme campo de algodão, de onde meu bisavô e meu tataravô Seu João tiravam sustento, importando sacas de algodão para o continente. Mas foi na Ilha Rata que Júlio fez história, ele morou por muito anos lá, até hoje em dia sua casa está de pé, antes de sua habitação muitas famílias viviam na Ilha Rata, durante os anos de extração do
Guamo ( fertilizante natural de fezes de aves marinhas) que são abundantes na ilha o que facilitou muito na confecção das hortas e pomares que Júlio criou posteriormente, conta Lourdinha minha avó que era rica a diversidade de culturas de plantas na Rata, desde Melancias que ficavam enormes, batata-doce, feijão verde, fava, milho, melão brasileiro, jerimum e etc... de tudo um pouco Júlio Grande plantou na Ilha Rata, ele compartilhava tudo oque plantava ou no máximo fazia um cambismo
(troca) naquela época havia senso de comunidade, os habitantes do arquipelágo se ajudavam, ninguém comprava um peixe, isso era absurdo.
Hoje observamos o que o turismo faz nesse sentido, as razões socio culturais do lugar vão se perdendo, tradições até tentam ser esquecidas, mas o meu intuito é justamente sublinhar a luta que é manter as histórias e a cultura de um povo viva. Angra dos Reis-RJ é um grande exemplo disso, de como o capitalismo e o turismo tentam destruir a história do povo local. Devemos respeitar os antepassados e suas vivências, é claro que comer carne de tartaruga não é a melhor maneira de situar a cultura noronhense na atualidade, mas lutar por leis de inclusão a prática da pesca de apneia artesanal dentro do respeito ambiental cultivando e perpetuando as tradições de Noronha, para que seus nativos e moradores possam conviver com o mar como no passado. A luta continua, a história de Noronha nunca se apagará.
Abaixo o Antigo Complexo de moradias na Vila dos Remédios onde várias famílias habitavam na década de 50, inclusive Júlio e nossa família a 2° casa deles na ilha.
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